BEM-VINDOS E OBRIGADA PELA VISITA.




NOTÍCIAS *INFORMAÇÕES * DISTRAÇÕES * IMPRESSÕES * PULSAÇÕES

dezembro 24, 2010

Uma historinha de Paulo Coelho


   Nossa Senhora, com o menino Jesus nos braços, desceu à Terra para visitar um mosteiro. Orgulhosos, os padres fizeram fila para homenageá-la; um declamou poemas, outro mostrou iluminuras para a Bíblia, outro recitou o nome dos santos. No final da fila estava um padre humilde, que não tivera chance de aprender com os sábios da época. Seus pais eram pessoas simples, que trabalhavam num circo. Quando chegou sua vez, os monges quiseram encerrar as homenagens, com medo de que ele comprometesse a imagem do mosteiro. Mas também ele queria mostrar seu amor pela Virgem. Envergonhado, sentindo o olhar reprovador dos irmãos, tirou umas laranjas do bolso e começou a atirá-las para o ar - fazendo malabarismos que seus pais lhe haviam ensinado no circo. Foi só então que o Menino Jesus  sorriu, batendo palmas de alegria. E só para ele a Virgem estendeu os braços, deixando que segurasse um pouco seu filho.
                                                                                  
(Do livro Maktub)

   Nada a comentar; só a sentir. O tempo é de travessia e de espera (vezenquando sem esperança), de silêncio, de reflexão. O tempo é mais forte, senhor absoluto de todas as respostas... Mas então é Natal. Deixe-me contemplar o aniversariante.

dezembro 13, 2010


   Dizer adeus aos sonhos. Dor. Que falta de ar. A mulher, sentada no toco de árvore (era uma ameixeira), observa o pedaço de terra que não é mais seu. Tanto que brincou e fantasiou por ali quando menino e menina. Longe esse tempo. Não há mais nada. Só a terra. Nem os sonhos não há mais. Não há mais tempo? Força? Alma para tanto? Não sabe. Só sente que dentro de si espalha-se uma aridez lenta mas incontrolável. Percebe a hora de aprender a se bastar com relampejos de felicidade e mínimas realizações - não um pomar: uma árvore; não um teatro: um invisível tablado; não uma vida sua, única: dividida, em rédea. Andou pensando demais nos outros (que foram indo, indo, e também o tempo, irrecuperável). Restou esse momento de olhos molhados no fim de tarde, a terra que não é mais sua diante de si, nua. Vergonha e cansaço de não ter sabido viver, comer a vida e não ser tragada por ela. Que incompetência.
   Dor. E essa falta de ar. Que fome de sonhos. Vontade de saber onde permitiu o desastre, onde o trem de sua vida descarrilou e desde então ela jaz à beira da estrada.
   Um jardim, talvez, quem sabe, um pequeno jardim... Precisa tentar presentear a esta vida ao menos um pequeno jardim. Ah, saudade do tempo dos anjos e das fadas e dos piratas e das tantas vidas que um dia acreditou possíveis. (Telma Monteiro)

novembro 21, 2010

Efeito de um dia nublado


   Devo começar assim: adoro dias nublados. O tempo recolhido, como se em fazenda, dia não totalmente nascido. Céu prometendo: qualquer hora a chuva vem - ou não. Gosto é da promessa, da perspectiva, da esperança.
   Nunca mais, nunca mais acordei com manhãzinha já vestida de chuva, aquela chuva meio displicente mas intermitente, delicadeza musical no telhado. Quando criança, dia presenteado assim era dia de não ir pra aula (escola longe...); dia de ficar mais tempo na cama, ler gibi, ver desenho na tv, tirar pijama só mais tarde, assistir da janela as sombrinhas passando, as pessoas recolhidas em si mesmas.
   Havia um quintal e havia um jardim na minha infância e eu bem gostava de ver as gotas caindo sobre as cores, e também de espalhar barquinhos de papel pelos caminhos de água que formavam filetes de correnteza. E lá ia o meu barquinho de folha de jornal, de folha de caderno, e logo outro, e outro, todos singrando para a rua, frágeis e destemidos... Seu porto de chegada, uma ilha chamada Mistério. Tantas vezes me aventurei por lá; mas agora perdi o mapa. (Telma Monteiro)

outubro 22, 2010

Algumas grandes descobertas!


    Andei esses anos todos sem saber que...
  • O nome completo do Pato Donald é Donald Fauntleroy Duck.
  • Em 1997, as linhas aéreas americanas economizaram  US$40.000 eliminando uma azeitona de cada salada.
  • Uma girafa pode limpar as suas próprias orelhas com a língua.
  • Milhões de árvores no mundo são acidentalmente plantadas por esquilos que enterram nozes e depois não lembram onde as esconderam.
  • Comer uma maçã é mais eficaz que beber um café para se manter acordado.
  • As formigas espreguiçam-se pela manhã quando acordam.
  • As escovas de dentes azuis são mais usadas que as vermelhas.
  • Ninguém consegue lamber o próprio cotovelo. É impossível tocá-lo com a própria língua!
  • Só um alimento não se deteriora: o mel.
  • Um terço de todos os gelados vendidos no mundo são de baunilha.
  • As unhas das mãos crescem quatro vezes mais rápido do que as dos pés.
  • O olho do avestruz é maior do que o seu cérebro.
  • Os destros vivem em média nove anos mais do que os canhotos.
  • O quack de um pato não produz eco e ninguém sabe por quê.
  • O músculo mais potente do corpo humano é a língua.
  • É impossível espirrar com os olhos abertos.
  • J é a única letra que não aparece na tabela periódica.
  • Uma gota de óleo torna 25 litros de água impróprios para o consumo.
  • Os chimpanzés e os golfinhos são os únicos animais capazes de se reconhecer frente a um espelho.
  • Rir durante o dia faz com que você durma melhor à noite.
  • 40% dos telespectadores do jornal dão boa-noite ao apresentador no final.
   Curiosidade:  Aproximadamente 70% das pessoas que leem isto tentam lamber o cotovelo. Não adianta, não dá!

                                                             (extraído de Vistalegre Blog, com pequenas modificações)


   Falando sério: sua vida não ficou melhor e mais fácil depois dessas informações?

outubro 03, 2010

A máscara de todos nós


   Andei falando esses dias com uma amiga sobre a mentira. Mentirinhas, grandes mentiras... Mentira pequena não é pecado, ensinou minha mãe. Aquela que não prejudica nem magoa ninguém. Já as maiores, principalmente as que envolvem os sentimentos de outra pessoa, jogam com a sensibilidade alheia, põem em risco a confiança que não foi dada de graça nem nasceu na porta de um botequim, isso é sério. Chega a ser de uma irresponsabilidade absurda.
   Minha amiga lembrou de uma parte no livro O Caçador de Pipas, em que o pai dos meninos diz que o maior pecado é o roubo. Roubar o direito a vida, roubar o direito a liberdade, roubar o direito a verdade. Roubar a confiança que se conquistou de alguém. E eu lembrei de uma frase do Quintana: A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer. E assim simboliza-se, poeticamente, uma busca pela felicidade que por um motivo ou outro falte no momento.
   Porém, quando há uma outra parte (e quase sempre há), o direito dessa outra parte saber a verdade é o limite; e quando esse limite não é ao menos considerado, acontece a mágoa, a dor, o estrago.
   Quando menina, ouvi a história de um menino que mentia sobre estar em perigo só pra se divertir às custas do desespero provocado nos outros, envaidecido do seu próprio poder de convencimento (a chamada performance). Até que, um dia, quando realmente em perigo, ninguém acreditou nele porque haviam cansado de acreditar. Não lembro o que aconteceu com o menino.
   Descobrir uma mentira traz uma série de consequências até anteriores a ela - desde quando? quantas vezes? E a imaginação de um sorriso por trás do ato, de alguém se divertindo pela ingenuidade do outro, orgulhando-se do seu próprio jogo de dissimulação.
   Não saber mais o que é verdade, o que é mentira, sufoca, aflige, incomoda.  Ah, a maravilha das artes de representação sobre um palco, atrás de uma câmera, quando assistimos atuações capazes de cativar nossa credibilidade e capturar nossa emoção (positiva ou negativa). Mas, ao fim daquele tempo, finda-se a ilusão. Entramos naquele mundo plenamente conscientes do quadro ilusório que a nós seria oferecido, até pagamos por ele.
   O fim de um sonho (sob todas as formas) exige uma revisão da própria vida. Pensei agora em todas as grandes mentiras que tive a oportunidade de dizer,  em todas as chances que tive de enredar e deixei passar. Não sou santa. Cultivo um rosário de pequenas mentiras. Mas, como disse pra minha amiga, cinco anos em colégio de freiras estragaram meu caráter (e também minha mãe, com seu olhar que parecia desvendar tudo).
   O risco de se oferecer de presente uma mentira que toca e espinha um coração, é que não vai poder se recusar o presente, se ele vier de volta. E que triste a vida se tornando apenas um círculo vicioso. Ou um simples jogo de mal-me-quer, bem-me-quer - tu me enganas, eu te engano... (T. M.)
  
  

setembro 23, 2010

Arvoredo II


   A moça com olhos de jabuticaba lembrou que tivera um pé de laranjeira na infância, que só lhe dera duas coisas: a esperança de um dia ver uma flor, branca, cerosa, de cinco pétalas... e muitas formigas!
   As formigas... Meus fracassados pés-de-milho só me deram isso também, nada mais. Contudo, a esperança alimentada pelo sonho das flores de laranjeira, moça, isso não tem preço, não foi inútil, jamais em vão. Perfumou aquele tempo.
   Porque esperança é algo maior do que uma simples longa espera. Não é somente esperar alguém chegar, por exemplo, com eternidades de atraso. É alimentar-se de uma possível (ainda que hipotética) chegada. De um possível (ainda que incerto) sorriso. De que uma inesperada e feérica (adoro a palavra!) descoberta aconteça, afinal (assim: meu Deus, você estava aí, todas as voltas do relógio, e eu não te vi; você estava aí, como quem não quer nada, mas me querendo tanto, e eu não te senti; você estava aí e eu aqui, e nós...).
   A esperança não é uma espera vazia, distraída ou monótona. Ela rege o impossível, o amanhã, o inesperado, o improvável - e guia nossa crença, fazendo-nos até ignorar a lógica. A esperança tem vida própria e não teima, mas naturalmente insiste, sutilmente resiste. Inexplicável.
   Faço de conta que não sei da ainda viva esperança de ver vingar uns pés-de-milho e, de brinde, ensolarados girassóis. E agora, eis que quero também flores de laranjeira, para não me deixar enlouquecer e me fazer dormir. (T. M.)

setembro 22, 2010

Arvoredo

                                                                                         Foto: Telma Monteiro

   Abacateiro. Abiu colando os lábios. Ameixeira. Cajueiro. Mangueira. Mamoeiro. Bananeira. Fruta-pão. Jaqueira. Açaizeiro. Cacaueiro. Cupuzeiro.  Goiabeira. As árvores da minha vida, companheiras da minha infância, sujando as mãos, os dentes, manchando as roupas, enchendo a barriga, galho ora virando cavalo galopando ao vento, ora inimigo fornecendo cipó para lambar e dar lição.
   Todas se foram, seres de estimação. Morreram, foram cortadas, uma chuva mais forte as derrubou... Outros mamoeiros, obra de passarinhos, não das minhas mãos.
   Mas, tão longe a infância, eis que surpreendi um pezinho de goiabeira em meio ao mato, em meio ao seixo. Sei lá por que o deixei ir ficando, e fui vendo-o criar corpo, ir virando árvore, comecei cuidar, podar, regar, bem gostando de estar sendo encantada, eu que nunca fui de lavoura.
   Minha goiabeira já dá frutos, gostosos, que digam os passarinhos. E quando chove... Ah, fica tão bonita, larga, aberta e verde, rejuvenesce meu coração. O Pequeno Príncipe tinha um baobá no seu planeta. Eu tenho uma goiabeira. Dentro e fora de mim.(T. M.)

setembro 15, 2010

Comportamento Geral - Gonzaguinha

Voto: pensar bem é obrigatório


   Em tempo de (pouca) política e (muita) politicagem, nunca será demais ler e meditar sobre este poema de Bertolt Brecht - Perguntas de um trabalhador que lê:

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem a ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos de triunfo.
Quem os levantou? Sobre quem triunfaram os césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritavam pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses.
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu, além dele?
Uma vitória em cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava suas despesas?
Tantos relatos.
Tantas perguntas.

                                                                                                         (Imagem: Trabalhadores, de José Sabóia)

agosto 03, 2010

Ainda Quintana

Clique na imagem duas vezes para ver maior

* Estela tem um blog dedicado ao Mário Quintana -  Quintana é para sempre, que por sinal completou 1 ano em julho, e eu gostei muito deste poema de uma delicadeza quintaniana que ela postou. 

julho 30, 2010

Quintana ad infinitum


   Primeira carícia do poeta de olhar infantil foi: Sou um fio d'água transportado pela areia. Todas as coisas frágeis e pobres se parecem comigo. Tanta delicadeza, um passarinho na mão. Comecei a caçar suas palavras e paisagens, ora de um encanto angelical, ora - vejam só! - de uma elegante ironia.
   Gaúcho de Alegrete, alfabetizado pela mãe e pelo pai farmacêutico, só ficou na cidade natal até a adolescência. Deixou para trás os dias de uma luz tão mansa, os serões em família, as casas cercadas de tias e os primeiros amores. Tive uma infância igual a de todo guri, talvez mais dada a leitura, por inclinação natural.
   Importante ponto de consolidação de seu estilo literário foi a mudança para a capital, quando publicou seus primeiros textos na revista dos alunos do Colégio Militar de Porto Alegre, a Hyléia. Asas já ensaiando um voo livre, profundamente independente, lírico e muitas vezes muito bem-humorado. O resto, que os próprios poemas contem...
   E Quintana também me levou a Bruna Lombardi. Foi por referência dele  que acreditei que por trás de tanta beleza, aqueles olhos de selva, havia uma poeta. Tanta admiração não seria à toa.
   Tem minha especial atenção a poesia breve, muitas vezes em prosa - uma caixinha é posta a sua frente, você abre e se surpreende com a flor rara, delicada, insuspeitada.
   Em maio, lamentaram-se os seus 16 anos de morte. E hoje comemoram-se os seus 104 anos sempre vivos. Ave, Quintana!
  
Há um silêncio de antes de abrir-se um telegrama urgente
Há um silêncio de um primeiro olhar de desejo
Há um silêncio trêmulo de teias ao apanhar uma mosca
... e o silêncio de uma lápide que ninguém lê. (Silêncios)

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio. (A oferenda)

Caminhozinho por onde eu ia andando
E de repente te sumiste,
- o que seria que te aconteceu?
Eu sei... o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
Que a de um caminho que se perdeu... (Uma simples elegia)

   Se alguém acha que estás escrevendo muito bem, desconfia... O crime perfeito não deixa vestígios. (Do estilo)

Dias maravilhosos em que os jornais vêm cheios de poesia...
E do lábio do amigo brotam palavras de eterno encanto...
Dias mágicos...
Em que os burgueses espiam,
Através das vidraças dos escritórios,
A graça gratuita das nuvens... (O milagre)

...a tua cabeleira feita de chamas negras... (Outro princípio de incêndio)



Pequeno esclarecimento

   Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos ou declamatórios. Um silêncio... este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.

  

julho 24, 2010


   É noitemanhã. Dor na nuca, ventilador ligado, falso silêncio na rua  (aquele mesmo de pescador só pra iludir o peixe e levá-lo à isca), porque logo uma buzina toca, é um código ilícito, e ninguém fará nada, pois todos já estamos perigosamente na caminho com Maiakóvski.
   As notícias nos jornais quase em nada lembram humanidade, porque quase nada mais há de humanidade - faz-se necessário não mais disfarçar, para não cair na hipocrisia: a época é luciferina.
   E eu só queria que você respeitasse minha insônia e meu ser caracol. Há horas em que a palavra demora aqui dentro, senta-se à beira da estrada e só quer ficar a ver navios e sonhos e miragens passando. Há horas que são por um triz, há horas em que estou por um fio e preciso calar. Não precisa entender. Apenas respeite a porta fechada, o livro aberto, a mão e a caneta, os ouvidos selados, o ócio, a carne sem libido, os meus últimos segredos. Os cães me sabem. Os cães! (T.M.)

julho 20, 2010

20 de julho - amigos, amizade

   Imagine escolher uma frase, entre as milhares que já foram escritas, para definir a mais celebrada relação que existe na face da Terra. Uma frasezinha apenas, um único conjunto de palavras que possa abarcar e transmitir o que é a amizade. Dos pára-choques de caminhão aos filósofos gregos, dos ditados populares a Shakespeare, selecionei uma delas, muito singela, que é capaz de dar a exata dimensão desse tipo de amor. Ela foi escrita por um autor norte-americano de ficção científica, Ray Bradbury. Disse nosso amigo Ray que a amizade é uma casa com uma luzinha na varanda. Bonito, não? Num único flash, ele consegue passar a sensação de aconchego, calor, carinho e alegria que pode estar presente na amizade. Isto é, por mais escura que a noite possa nos parecer, a luminosidade acolhedora desse sentimento vai estar sempre aguardando nossa chegada. Ao abrigo dos amigos, podemos tirar a fantasia, a máscara e a armadura e largar paus e pedras e nos mostrar vulneráveis, frágeis, cheios de defeitos. E perceber que, ainda assim, somos aceitos. Existe bem tão precioso quanto esse num mundo tão agressivo e pontudo como o de hoje?
   (...) Para terminar, queria lembrar alguém que fez um tratado sobre amizade (Da amizade) há quase 2 mil anos, o senador romano Marco Túlio Cícero. Diz ele que se os deuses nos dessem o paraíso, com suas flores e frutos, paz e abundância, beleza e harmonia, em pouquíssimo tempo a gente morreria de tédio, se não tivéssemos amigos para dividir a experiência. Enfim, sem o sal da amizade, a vida fica sem tempero, sem graça. Não é motivo suficiente para você levantar agora do sofá e ir ver um amigo? (Liane Alves, revista Vida Simples, ed. 33)

Celebração da Amizade/1


   Nos subúrbio de Havana, chamam o amigo de minha terra ou meu sangue.
   Em Caracas, o amigo é minha pada ou minha chave: pada, por causa de padaria, a fonte do bom pão para as fomes da alma; e chave por causa de...
   - Chave, por causa de chave - me conta Mário Benedetti.
   E me conta que quando morava em Buenos Aires, nos tempos do horror, ele usava cinco chaves alheias em seu chaveiro: cinco chaves, de cinco casas, de cinco amigos: as chaves que o salvaram. (Eduardo Galeano, em O livro dos abraços)

julho 03, 2010

Máximas do teclado

 Recados Para Orkut

  • A pressa é inimiga da conexão.
  • Amigos, amigos, senhas à parte.
  • Antes só que em chats aborrecidos.
  • A arquivo dado não se olha o formato.
  • Diga-me que chat frequentas e te direi quem és.
  • Para bom provedor, uma senha basta.
  • Não adianta chorar sobre o arquivo deletado.
  • Em briga de namorados virtuais não se mete o mouse.
  • Em terra offline, quem tem discada é rei.
  • Hacker que ladra não morde.
  • Mais vale um arquivo no HD do que dois baixando.
  • Mouse sujo se limpa em casa.
  • Melhor prevenir que formatar.
  • O barato sai caro e lento.
  • Quando a esmola é demais, tem vírus anexado.
  • Quando um não quer, dois não teclam.
  • Quem ama um 486, Core Duo lhe parece.
  • Quem clica, seus males multiplica.
  • Quem com vírus infecta, com vírus será infectado.
  • Quem envia o que quer, recebe o que não quer.
  • Quem não tem banda larga, caça com discada.
  • Quem nunca errou que aperte a primeira tecla.
  • Quem semeia e-mails, colhe spams.
  • Quem tem dedo vai a Roma.com.
  • Um é pouco, dois é bom, três é chat.
  • Vão-se os arquivos, ficam os backups.
  • A felicidade está a um click do mouse.
  • Os mais lentos serão os últimos a baixar.
                                                                             (Fonte: amostragratis.org
    Imagem: recados-orkut.com)

    junho 30, 2010

    Esculturas de Ron Mueck


                                                                       Menino (1999)

                                                          Mulher Grávida (2002)

                                                                         Anjo (1997)

       Ron Mueck é um escultor australiano, nascido em Melbourne (1958), que cresceu vendo os pais construírem brinquedos. Atualmente radicado na Grã-Bretanha.
      Utiliza efeitos especiais cinematográficos para criar obras de arte hipperrealistas. O tamanho das mesmas (gigantescas ou diminutas) é a única coisa que nos impede de confundí-las com pessoas. 

                                                          Duas Mulheres (2005)

       Mueck iniciou a carreira fabricando marionetes e modelos para a televisão e filmes infantis (dentre eles os filmes Dreamchild e Labirinth). Observe-se que suas esculturas - realizadas em silicone, acrílico e fibra de vidro -, reproduzem fielmente os detalhes do corpo humano, utilizando a escala para produzir impressionantes imagens visuais.
       "Esta é uma das maiores virtudes das obras de Ron Mueck: a fragilidade dos seres humanos, apresentada de um modo cru (...). É essa qualidade que as torna insuportavelmente reais, mas também profundamente emotivas, tocantes até, a que a escala monumental ou diminuta das figuras acrescenta uma estranheza inquietante. Simultaneamente reais e falsas, encarnam afinal a dualidade do ser humano (...)." (Seven, em Obvious)


                                                           Bebê (2002) 

                                                                      Mulher Sentada (2000)



                                                          Homem Grande (2000) 

    Jamais quis ser um escultor. 
    Não sei bem porque faço isto, 
    mas não me imagino fazendo outra coisa.
    Não me considero um artista, 
    isto é simplesmente a única coisa que sei fazer. 
    (RON MUECK)


    junho 11, 2010

    E ainda porque 12 de junho...


       Namorar, verbo intransitivo, com complemento. Quem namora, namora alguém ou alguma coisa. Mas muita gente namora sem saber que namora. E muita gente não namora, mas pensa que namora. Porque namorar não é apenas ficar - ficar nada tem a ver com enamoramento, que tudo tem a ver com a mágica do encontro.
       Namorar é um gostar assim meio amigo e meio amante. É bem-querer sem cobranças, é sintonia, é saber se completar até com as prováveis diferenças da outra parte. É descoberta de si e do outro. É ternura leve, mas profunda. É ser capaz de pequenas loucuras, surpresas travessas, infantilidades súbitas, sensibilidade à flor da pele para escolher uma flor da cor da pele (dele ou dela). É olhar nos olhos, é saber chegar ao coração. Não é usar a companhia de alguém para tapar um vazio na sua vida; é companheirismo, é estar ao lado mesmo não estando junto.
       Namorar não é compromisso, é encantamento. É ouvir bem e ficar de olho, não para controlar o outro, mas para apreendê-lo, para descobrí-lo no que puder. É sentir prazer em dar prazer; é se soltar para a emoção do momento convivido; é revestir-se da própria paixão; é  descortinar sua face mais bem cuidada e mais querida, sem farsa e sem disfarce. É brilhar como lua cheia e aquecer como sol: inteira e naturalmente.  (T. M.)

    junho 06, 2010

    Junho, mês dos namorados...


       E apesar de nem todo mundo ser ou ter namorado (a), todo mundo namora. Alguma coisa ou alguém.
       O Mickey (ainda) namora a Minie, o Donald (ainda) namora a Margarida, o Garfield namora a Arlene, o Chico Bento namora a Rosinha.
       O surfista namora a prancha, a prancha namora a onda, o preso namora a liberdade, a chuteira namora a bola. A França namora o perfume, o nordeste namora a chuva, o brasileiro namora a sorte grande.
       O Max namora a poesia, o Camelo namora a Malu, a Cynthia namora a Christine, o Dario namora o Fabricio... E, ah! A Madonna namorava meio mundo...
       O mundo namora a Amazônia, a Terra namora a Lua, o jeans namora a camiseta, o coqueiro namora a brisa, a abelha namora o mel.
       O ritmo namora o corpo, o vampiro namora o pescoço, a mão namora o seio, a língua namora a orelha, o joelho namora a coxa.
       A imagem namora o olhar, a música namora a letra, o som namora o silêncio, e este texto namora você. Porque todo mundo namora. Alguma coisa ou alguém. Alguém é mais gostoso. (W. Olivetto e Telma Monteiro)

    maio 26, 2010


       E Benjamim continua colhendo néctares... Já faz um tempo tenho vontade de postar alguma coisa da Jô (fragmentosdejo.blogspot.com), difícil escolher entre tanta coisa que gosto. Hoje meu olhar bateu e desaguou nesse poema, que gritou: Eu! Eu!
      
    AUTO-RETRATO
    Quando crescer, quero ser prosa...
    uma prosa poética.
    Se for difícil,
    serve uma poesia prosaica.

    Gosto de barulho de água,
    não gosto de pessoas bipolares.
    Detesto laranjado e acho que não ficaria bem sem cabelos...
     Por isso não sou budista.

    Leio revistas de ponta a ponta,
    uso até marcador de livro e
    nem o corpo editorial passa despercebido.
    Não consigo largar um livro no meio.
    Falando neles, já comprei pela capa,
    já dei de presente e me arrependi.
    Queria um perfume com cheiro de livro novo.

    Não sou católica.
    Sou covarde, segundo Dawkins.
    Tenho déjà vus e não sei explicá-los.
    Temo o que não entendo.

    Não concordo com Drummond às vezes,
    mas sempre me delicio lendo-o.
    Rubem Fonseca mexe com meus instintos,
    por sorte meu inconsciente sabe guardar segredos.

    Prefiro dias nublados e ensolarados.
    Não gosto de elevadores.
    Não uso tênis nem jeans.
    Não sei se me namoraria.
    Angustio-me com pouca coisa
    e choro por menos ainda.

    Tenho o pensamento fragmentado...
    minha lógica nem sempre é muito lógica.
    Não tolero que me subestimem
    e tenho medo do contrário.
    Tenho medo de muitas coisas,
    mas poucas me paralisam.

    Tenho um diário não diário,
    não gosto de obrigações...
    nem de rimas e formas fixas.
    Sempre uso agenda até os três primeiros meses do ano,
    depois as abandono numa gaveta qualquer.
    E não tenho paciência de Jó.
    O meu acento é circunflexo.

    Tenho dúvidas, muitas dúvidas
    e nenhuma certeza.
    Mas quem precisa delas?


    Miau!


    • O gato é o único animal doméstico que a Bíblia não menciona.
    • Eluro (ou aílouros) é palavra do grego antigo que significa gato, e por isso os elurófilos são aqueles que adoram gatos.
    • Phobos é palavra do grego antigo que significa medo. Portanto elurófobos são aqueles que têm medo incomum de gatos ou aversão por eles.
    • Por 2.300 anos as pessoas acreditaram que os gatos tinham mais que uma vida. No livro de fábulas sobre animais Panchatantra, compilado na Índia no século III a. C., o escritor supôs que os gatos, por conseguirem sobreviver a grandes quedas e atrocidades, deviam ter a capacidade de viver várias vezes.
    • Os egípcios antigos nunca mostravam gatos dormindo em suas obras de arte. Como os gatos eram adorados pela sabedoria, os artistas só os retratavam em posição ereta.
    • Quando os gatos semicerram os olhos ao olhar para você, é indício de confiança.
    • Se um gato se limpar logo depois de você tê-lo acariciado, não se ofenda. É o jeito dele de guardar o seu cheiro.
    • Ao contrário dos cachorros, tão ligados às pessoas que acabam assimilando os tiques emocionais e os medos dos donos, os gatos têm uma noção melhor de limites - são mais independentes emocionalmente e, por isso, se mantêm firmes diante das fraquezas humanas.
    • O gato pega água com o lado de baixo da língua, não o de cima, como se imagina. Ele enrola a língua ao contrário, como se fosse uma colher, e leva a água à boca.
    • São Francisco de Assis foi o responsável pela mudança da imagem dos gatos, no século XIII. Por causa do apreço do santo por eles, os artistas da época deixaram de vê-los como entidades satânicas e passaram a pintá-los com uma imagem mais simpática.
    • Já que o romrom é uma forma de comunicação do gato, ele não ronrona quando está sozinho, nem que esteja muito feliz e bem acomodado. O romrom dele só existe para você. 
                                                 (De Os gatos nem sempre caem em pé, Erin Barret e Jack Mingo, Publifolha)
                             
                                              * Imagem: Tela de Aldemir Martins

    LOVE CATS (The Cure)

    maio 16, 2010


        Benjamim resolveu tirar o dia pra postar algumas palavras de outras flores. Palavras que dizem, palavras que tocam...


    Sou da arte
    Sou desses que respeitam o palco
    Sou dessa gente que ganha pouco
    Faço parte desses loucos, apaixonados
    Cada dia mais me convenço que sou da arte
    Desses que choram de vez em quando
    Ou gargalham uns com os outros
    Eu acredito na minha arte
    Na rua, no picadeiro
    Me fiz atriz, palhaça, errante
    Passei a crer na cultura, no belo, no estranho
    Eu me fiz estranha
    Me fiz olho no olho
    Me fiz várias, para provocar meu público
    Me refiz o que sou
    Me fiz da arte
    E dela hoje sou.  (Andréia Flores)


       Dela eu herdei a labuta, a febre pelo bem-estar do outro, os dedos longos desprovidos de cansaço, o riso fácil e despretenciosamente simples, e essa capacidade de resistir ao tempo e às tempestades apesar do choro.
       Dela eu recordo o rosto sempre geladinho de suor, o gostar de dormir profundamente, a enxaqueca, a sopa de legumes, as providências necessárias para o ajuste das horas, a prontidão, o colo e a mão a mostrar-me o altar a todo instante... "Joelho no chão e rosto no pó!" - dizia ela, a me conduzir ao  misterioso lugar onde podemos pedir por tudo que precisamos para alcançar nossos largos e mais íntimos objetivos.
       Dela, minha mãe, resta em mim, hoje, o segredo que rege minha vida: o tempo de agora, a pessoa presente, o sentimento que pode ser trocado em tempo real com quem desejamos construir história...
       Impossível não lembrá-la tão doce, rígida e apaixonadamente única em forma e conteúdo. Eu, tão somente, uma forma dela permanecer conosco. (Rosilene Cordeiro)

    maio 07, 2010

    Tarde de chuva

       
       Sentada à mesa, pela janela aberta a minha frente assisto a chuva, forte, chicoteante. A goiabeira de copa larga dança em volteios e faz-me relembrar a suavizada euforia de brincar na chuva, pés descalços espocando poças. Simplesmente delicioso.
        Não escuto nenhum som humano porque a voz da chuva antecipa-se a tudo. Gosto tanto disso, dessa espécie de silêncio acolhedor, pleno de natureza, um cheiro único, água e mato e pedras. Nenhuma voz ferindo a hora, agredindo a vida, só a chuva e o vento conferindo ao meu cantinho um ar de retiro nas montanhas.
       Revisito outras lembranças que herdei. Quando chovia assim, como agora, e estávamos sós, minha mãe chamava para a rede e ficávamos nos embalando, ela ao meio, cantando, contando histórias do seu passado de moça do interior, anedotas e charadas. Minha mãe era mulher de piadas e charadas. "Quatro pernas, em cima de quatro pernas, esperando quatro pernas. Quatro pernas não veio, quatro pernas foi embora e quatro pernas ficou." Aliviava-me a alma. Sempre tive tanto medo de trovoadas e cia. "Bobagem... É só Deus arrumando os móveis lá em cima.", denunciava. E eu gostava de acreditar. Preciso tanto voltar a acreditar em algumas coisas.
       E as sombras bruxuleando na parede? Assombrações num cenário trovejante e relampejante, meu coração parava. Mistérios invencíveis que não resistiam quando ela trazia o meu medo para a luz (ou vice-versa). Não eram nada, revezavam-se galhos, roupas dependuradas, qualquer algo inofensivo que minha fantasia de menina que lia demais agigantava. Mas ela incentivava brincar com as nuvens, sombras brancas que já viviam na luz, singrando por uma tela azul, sendo levadas lentamente pela correnteza das horas. "Só não veja apenas carneirinhos. É tão comum..."
       A chuva passou e é tempo de enfrentar as sombras de uma caótica realidade. Os raios e relâmpagos não são mais fenômenos fantásticos e eu mal consigo inventar coisas e adulterar pequenas verdades. Não sou mais tão límpida. (T.M.)

    maio 04, 2010

    Manheeê!

       Corajosas, magníficas, amorosas, de braços sempre abertos (a mão nem sempre) e coração anorme - assim em geral são as mães. Egoístas, próximas mas ausentes, detestáveis, incompreensivas, donas da verdade - assim também podem ser as mães. Exageradamente maternais ou sabendo desfilar elegantemente entre o meio termo. Porque não existe mãe perfeita; com muita sorte , existe a mãe ideal (para a gente), aquela que entende, aceita e perdoa o que outra não entenderia, nem aceitaria ou perdoaria.
       Possuem uma linguagem própria. Qual o filho ou filha (da mãe, claro) que já não ouviu ao menos uma dessas pérolas: isso são horas de chegar?, quando você também tiver filhos vai saber como é, eu na sua idade...   
      Mãe que é mãe, é sempre mãe. Do bandido e do mocinho, da mocinha direita e da que saiu da linha, do pior aluno da escola e do cdf da turma, do anjinho e do capetinha, do que é tudo o que ela sonhou e do que pariu seus próprios sonhos (oh, atrevimento!).
      Ser mãe não é exibir título de propriedade do filho. Sendo a representação viva do que seja o amor sem compromisso, dado de graça, sem subterfúgios, máscaras ou meias-palavras, aceita-se até que seja um pouco exagerada; mas faz-se necessário que se apresente sempre revestida de compreensão e muita, muita sensibilidade. Porque ser mãe não é (só?) padecer no paraíso: é acompanhar o bater asas e alçar voo dos filhos dentro das próprias possibilidades. E algumas impossibilidades. (T.M.)

    abril 16, 2010

    Era uma vez...


       ... uma casa de palavras, uma casa abrigo, e três palavras procurando amigos - outras palavras que recriassem a palavra língua nuns lábios, nuns traços em antárticos espaços, 
    em mil sentidos corporais.
       Era uma vez uma casa, linguagem em movimento, palavra nítida, que se comunicava com a cidade, com a arte, com a vida. (T.M.)



       É fato que, no fundo, o ser humano é uma ilha - uma ilha móvel, com suas próprias angústias,  seus medos, decepções, inquietações, frustrações e ambições. Nascemos e morremos sós, pontos insignificantes diante da terra inteira, mais o sistema solar, e a via láctea e o indefinido (Fernando Pessoa).
       Mas, e o caminho entre um ponto e outro? A paisagem pode ser a mais atraente do mundo, a mais perfeita; contudo, sem a figura de um amigo que seja, as cores não são tão vivas quanto poderiam ser, as formas não são tão firmes. Uma queda, e cadê a mão estendida para a sua? Uma tristeza abissal e onde um colo para alugar? Uma alegria incontida, uma emoção nova, uma delicada ou surpreendente descoberta, mas... que sabor têm sem ninguém especial para dividir?
       Alguém escreveu um dia que Ser é antes de tudo fazer-se e encontrar-se, e ninguém pode fazer essa viagem sozinho. Porque é através da presença e do olhar do Outro que podemos nos tornar ou simplesmente nos descobrir melhores, encarar nossas possibilidades com mais confiança e nossas impotências com mais naturalidade, suportar melhor as reviravoltas dessa aventura única que é viver.
       Todos precisamos de alguém para trocar momentos de loucura e glória, para nos ajudar a desvendar nossos próprios mistérios e a proteger nosso lado mais bonito, aquele sem máscaras nem subterfúgios, num mundo cada vez mais superficial. Alguém com quem possamos dividir  nossa ternura mais secreta, a nossa face mais ardente, e exercitar as nossas fantasias, nosso erotismo, nossa passionalidade. Alguém a quem possamos dizer todas as letras e esquecer todas as palavras, ainda que numa louca e breve história.
       Não deve ser à toa que encontros casuais, alguns especialmente encantadores, acontecem todos os dias: é a vida dando chances a cada um de se descobrir e se encontrar no Outro(T. M.)

                                                                           

    abril 08, 2010

    Achados e perdidos

    Te dar um olhar,
    não aquele olhar distraído,
    mas um olhar de quem chegou inteiro
    e que se entrega enternecido e desamparado
    dizendo: olha, sou teu.
    Agora veja lá o que vai fazer comigo."

    (Affonso Romano de Sant'Anna)


    Carrego o peso da lua,
    Três paixões mal curadas,
    Um saara de páginas,
    Essa infinita madrugada.


    Viver de noite
    Me fez senhor do fogo.
    A vocês, eu deixo o sono.
    O sonho, não.
    Esse, eu mesmo carrego.


    (Paulo Leminski)


    um copo pela metade
    numa mesa abandonado
    um poema inacabado
    cinzas e baganas num cinzeiro
    uma foto amarelada
    uma carta no fundo da gaveta


    quanta tragédia desenganada


    (Clei de Souza)



    A poesia não dá camisa.
    O poeta
    Quando tem uma musa
    Não precisa de blusa
    Vive de brisa.


    (Pedro Bial)


    março 28, 2010

    Abriram-se as portas do inferno! Cercam-nos homens das cavernas, 
    que só sabem se comunicar numa linguagem estridente e bestializada! 
    Estão excitadíssimos porque tão próximos uns dos outros 
    e seus olhos brilham 
    enquanto coçam incansavelmente suas ditas identidades de macho
    Macho men, macho men! 
    Babam enquanto se comem com os olhos, 
    mas camuflam seus sentimentos.
    Só que rosnados e rugidos nunca foram bons disfarces.
    Não merecem usar batom e dublar I will survive.
    É a revolução dos imbecilizados. 
    Começou a lavagem cerebral no mundo.
    Salve-se quem puder!!!!!!!!!!

    março 17, 2010



    De repente a noite fez-se tão melancólica
    de repente há noite em mim
    e as palavras recolhem-se a um canto
    e misturam-se às sombras
    (fique à vontade, faça de conta que não existo
    por que dizer o que me arde, enternece
    ou apavora?
    nada poderá recuperar os minutos que giraram
    e a música que quase se fez)
    de repente lembrei, senti uma centelha resistindo no peito
    mas foi só um espasmo de poesia

    Poema

                            De Cazuza e Frejat, com Ney Matogrosso

    Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
    Eu acordei com medo e procurei no escuro
    Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
    Porque o passado me traz uma lembrança
    Do tempo que eu era criança
    E o medo era motivo de choro
    Desculpa pra um abraço ou um consolo.

    Hoje eu acordei com medo, mas não chorei
    Nem reclamei abrigo
    Do escuro eu via um infinito sem presente
    Passado ou futuro
    Senti um abraço forte, já não era medo
    Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
    De repente a gente vê que perdeu
    Ou está perdendo alguma coisa
    Morna e ingênua
    Que vai ficando no caminho
    Que é escuro e frio, mas também bonito
    Porque é iluminado
    Pela beleza do que aconteceu
    Há minutos atrás


    fevereiro 23, 2010

    Ah, os primeiros...


      Tabacaria foi o primeiro poema do Fernando Pessoa que eu li: "...Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,/E cantou a cantiga do Infinito numa  capoeira,/E ouviu a voz de Deus num poço tapado." Do Carlos Drummond de Andrade foi A bruxa - paixão à primeira vista! Da Lygia Fagundes Telles foi o conto O jardim selvagem, instigada por um especial da Globo (lembro da Lidia Brondi...). E o conto Feliz aniversário me apresentou a Clarice Lispector.
       Mas a primeira crônica (talvez não tenha sido a primeira, mas a que primeiro ficou encantada dentro de mim) foi Um pé-de-milho, do Rubem Braga. E aquele desenho de um pé-de-milho acima do texto - como as palavras e a imagem provocaram em mim um desejo de ter um também, tinha vontade e terra, corri a plantar. Brotaram três, que chegaram a ficar rapazinhos, contudo não vingaram, foram vencidos sem piedade pelas formigas ágeis e vorazes. Eu não fui capaz de defender o meu sonho.
       Mas não desisti. Ora e vez, quando distraída, o velho sonho me alcança e pés de milho e girassóis dançam ao vento e me convidam e me seduzem: vem, vem... E aquela música*!

       Sol, girassol, verde, vento solar
      Você ainda quer dançar comigo?
       Vento solar e estrelas do mar
         Um girassol da cor de seu cabelo... 


    * Um girassol da cor de seu cabelo, de Lô e Márcio Borges